The Great Reset

THE GREAT RESET: A GRANDE RECONFIGURAÇÃO – RADIOGRAFIA

José Oliveira, 27-2-2021

    Anunciado oficialmente na última reunião do World Economic Forum (WEF) e propagandeado pelos principais media corporativos, o “Great Reset” (GR) surge aí como já abrangentemente estruturado, indicando portanto que a sua elaboração já vem de mais longe. Alguns observadores apontam o ano de 2015 como o ponto de partida concreto.

Uma análise às suas formulações e estruturação permite-nos compreender os aspectos fundamentais, os objectivos e as maneiras de lá chegar, levando-nos a concluir tratar-se de um plano bastante bem elaborado e concebido para não haver possibilidade de inverter o caminho, ou seja, é uma via sem regresso, aparentemente, como é típico das mais importantes iniciativas corporativas.

Segundo esta abordagem, a terminologia usada visa esconder sempre os objectivos mais profundos e os métodos mais agressivos, através de uma linguagem eufemística e pretensamente neutral, para que a mensagem passe mais facilmente e entre no inconsciente colectivo com mais facilidade.

Começando então pelo princípio, diremos que o GR constitui o mais vasto assalto ao poder global jamais tentado na história. Trata-se de conseguir controlar tudo e todos, assegurando a irreversibilidade das circunstâncias. O GR é assim um megaprojecto de super-controle por parte das elites relativamente a todos os aspectos económicos e sociais que constituem as sociedades modernas. Este é o objectivo central e último. Como consegui-lo?

Já foi dito que quem domina o petróleo domina tudo ou quem domina a alimentação domina todos, mas desta vez as elites foram muito mais longe. O controle total é conseguido através de uma conjugação perfeita entre as novas tecnologias da informação, os vastos data-centre (existentes e em construção), o 5G e 6G e os sistemas financeiros e bancários de modo a eliminar o dinheiro vivo, substituindo-o pelo digital, processo denominado oficialmente como “digitalização da economia”. O acesso a todos os aspectos da vida social passa a ser feito através de aplicações dos smartphones, o que permite aos centros de controle acesso total e permanente em tempo real a tudo o que os cidadãos fazem, comunicam, compram, vendem, comem, deslocações, etc. Naturalmente que a gigantesca quantidade de dados necessária para processar toda essa informação sobre toda a gente está fora do alcance das limitadas capacidades humanas. Daí a grande utilidade dos mais recentes desenvolvimentos de inteligência artificial (AI) e de sofisticados algoritmos de controle para gerir toda essa massa de dados, na direcção que interessa.

Convém sublinhar que não se trata de nenhuma teoria da conspiração, mas antes da conspiração ela própria já em velocidade de cruzeiro, como é ampla e publicamente reconhecido por muitos dos seus mentores. Senão vejamos alguns factos marcantes.

Entre 2018 e 2021, a média do valor bolsista das grandes tecnológicas disparou de $ 10 para mais de $640. Segundo o jornal Business, o WEF pretende desmantelar o actual sistema financeiro substituindo-o pelo digital, “mudando o modo como o capitalismo funciona”.

É o próprio WEF que afirma: “A pandemia representa uma rara mas estreita janela de oportunidade para reflectir, reimaginar e reconfigurar o nosso mundo” (Klaus Schweib, presidente). O príncipe Carlos de Inglaterra também fez declarações no mesmo sentido, tal como o PM canadiano Trudeau: “Esta pandemia trouxe uma oportunidade de reconfigurar (reset) e reimaginar o sistema económico”.

Os gigantes tecnológicos como a Google e Apple já estão a dar os passos necessários, instalando tecnologia capaz de seguir e rastrear os passos de qualquer pessoa que tenha um smartphone ou android dessas marcas, o que abrange hoje 200 M de americanos. Concomitantemente, muitos estabelecimentos e lojas nos mais diversos locais já deixaram de aceitar dinheiro vivo (Starbucks, Whole Food, Wallmart, Lowe, etc.). O Economist é muito claro: “Os países mais ricos têm de começar a planear o seu futuro sem dinheiro vivo, no âmbito da economia digital”. Os termos usados pelo WEF são “Digital Economy and New Value Creation”.

De acordo com o BIS (Bank of International Settlements, o banco central dos bancos centrais), cerca de 80% de todos os bancos centrais do mundo estão a trabalhar para colocar a funcionar moedas e divisas digitais substituindo em breve o dinheiro vivo. A Suécia é um dos primeiros países, pois já começou a substituir a “Corona” sueca por moeda digital. A república das Bahamas segue idêntica via. Até a China já disponibiliza milhões de Yuan digitais, assegurando a simplicidade da conversão. Nos EUA, a máquina burocrática federal já está igualmente há anos a trabalhar na nova “Fedcoin” e o senador Tom Cotton do Arkansas disse mesmo: “Os EUA precisam já de um dólar digital”. Mesmo Nancy Pellosi incluiu no pacote de “Protecção aos Consumidores” uma “Fed Account” com “Digital Dollars”, no que foi acompanhada por outros colegas no Senado, sendo que o motivo é sempre o mesmo, ou seja, evitar que os EUA fiquem para trás na corrida às mudanças tecnológicas.

A empresa de cartões Visa acaba de registar uma patente (Maio de 2020) intitulada “Digital Fiat Currency”, e a sra. Cristine Lagarde, governadora do BCE, já declarou em diversas ocasiões a necessidade de os países se prepararem para a futura economia digital com supressão do dinheiro vivo.

É fácil imaginar como este poder obsessivo pode tratar os cidadãos mais recalcitrantes, sem repressão visível, bastando-lhe para tanto desconectar essas pessoas, privando-as assim de aceder ao que quer que seja. Um simples clique é suficiente. Neste contexto, a própria ideia de democracia e de direitos básicos deixa de ter qualquer espécie de sentido prático.

Mas para além do que se disse, a supressão do dinheiro vivo é apenas um dos vectores da Grande Reconfiguração. O objectivo é ir ainda bem mais longe, na medida em que essa iniciativa se integra num plano que visa extinguir a própria propriedade privada do dinheiro. As pessoas são convidadas a entregar aos bancos a totalidade dos seus activos, recebendo em troca uma espécie de passaporte que lhes permite aceder ao que quiserem e viajar à sua vontade. Uma 1ª fase desta medida já está em curso, por exemplo em Israel onde foi implementado um passaporte de saúde para todos os que quiseram ser inoculados com a vacina do C-19. Os ministros do exterior dos EM da UE também já acordaram nesse passaporte, embora ainda estejam longe de consenso sobre o seu âmbito e modo de implementação. Tal documento permitiria viajar sem restrições.

Acresce ainda a decisão da EU de que uma das principais condicionantes ao desbloqueamento das verbas da alegada “bazuca” europeia (pacote destinado e superar a crise criada pelo confinamento), teria de ser a implementação da referida “economia digital” por parte dos estados que solicitem esse apoio, de modo a não deixar alternativas a ninguém. É a mencionada via de sentido único.

Naturalmente que as elites têm consciência de que a concretização de toda esta panóplia de medidas não deixará de despertar os mais violentos tumultos e protestos generalizados, pelo que antecipou duas soluções tendentes a domesticar os ânimos mais exaltados. Por um lado, anuncia apostar na economia verde e descarbonizada, facto sempre do agrado das populações, e por outro implementa um Rendimento Básico Incondicional (RBI), tal como já defendem Sanders e A.Occasio-Cortez.

É curioso constatar que um dos principais gurus do neoliberalismo, o Nobel Milton Friedman, já na sua época preconizava a institucionalização do RBI, como forma de disciplinar as massas populares. As diversas experiências desse tipo entretanto levadas a cabo em alguns países, como Brasil, por exemplo, comprovam que de facto tal implementação teve a virtude de acabar com toda a espécie de contestação social.

Postos assim diante da situação presente, conviria neste momento debruçarmo-nos um pouco sobre as reacções.

Podemos constatar que do lado das esquerdas (todas), não se registam quaisquer reacções de nenhum tipo. É como se o problema sequer exista, preocupadas como estão em focar-se sobre dissensões e problemas pontuais, como políticas identitárias, por exemplo, focando a folha da árvore para esquecer a floresta, fingindo nada ter a ver com o assunto.

Estranhamente ou talvez não, as reacções mais vivas têm chegado de alguma direita corporativa e até de alguma extrema-direita, formações que têm vindo a arrebanhar à esquerda bom número das suas bandeiras tradicionais, agitando-as como se fossem bastiões direitistas. Neste caso do GR, as críticas visam manter o “business as usual”, contestar a centralização económico-social castradora da liberdade de empreendedorismo, as políticas sociais distributivas do RBI e o fim do sagrado direito de propriedade, tão caro aos defensores do sistema capitalista tradicional e que o próprio economista Thomas Picketty comprova ser um obstáculo a uma sociedade mais justa. Assim, alguns meios corporativos mais conservadores falam mesmo do advento do fim do capitalismo e da criação de um novo sistema de tipo socializante e centralizado.

Relações laborais na nova economia capitalista: o capitalismo da batata

José Oliveira, 22-1-2021

      Actualmente, grupos de intelectuais marxistas e sindicalistas da velha escola continuam colados e submissos às antigas concepções e categorias que marcavam as relações laborais no séc. XIX e que Marx tão bem escalpelizou nas suas obras. Essa estagnação conceptual de base tem distraído essas pessoas, algumas bem mediatizadas como Raquel Varela por exemplo, de dar a devida atenção às profundas alterações nas relações laborais que têm vindo a ser continuamente reelaboradas pelo sistema capitalista.

O conjunto dessas modificações sempre em curso, correndo bem adiante da trôpega regulamentação laboral/empresarial, visa uma série de objectivos que sempre fizeram parte da panóplia que o sistema procurou prosseguir na sua interminável senda da maximização do lucro e redução dos custos. Desse caminho faz necessariamente parte a acelerada financeirização da economia, modo de obter encaixes elevados, baixos custos e sem os inconvenientes e os entraves da produção, visto ser uma actividade essencialmente parasitária.

A fuga aos compromissos fiscais é uma outra estrada prosseguida a todo o vapor, bem como a criação generalizada de empresas sem funcionários, para servir apenas de veículos de encaminhamento dos fluxos e operações financeiras.

Naturalmente que os custos laborais são sempre a parte mais apetecível, por envolverem o lado mais fraco da relação empregador-empregado. Mas antes de prosseguirmos, é essencial estabelecer uma distinção crucial de partida.

O pecado original desses pensadores começa precisamente no facto de procurarem generalizar as categorias e descrições de Marx, esquecendo que o trabalho do grande mestre se foca quase por completo no capitalismo industrial do séc. XIX, então dominante, ou seja, o capitalismo da produção de bens.

Actualmente, a produção de bens ocupa uma parcela bastante reduzida no contexto da economia global (menos de 5%), de modo que os ensinamentos de Marx, embora válidos, só são aplicáveis com propriedade a esse mesmo nicho, ponto sobre o qual incide também grande parte da legislação e regulamentação laboral e empresarial. Isto significa igualmente que o percurso do capitalismo se veio a fixar no objectivo de ultrapassar, contornar e até esmagar progressivamente todos ou quase todos os entraves de ordem legal e social à sua incansável expansão global (superar os limites, como disse Marx).

Assim sendo, quando os pensadores actuais referem a “centralidade do trabalho” para a definição das políticas socio-laborais, estão de facto a tomar a parte pelo todo, e uma parte cada vez mais ínfima. Pior ainda, tal atitude actua como cortina, impedindo-as de ver e analisar com o devido detalhe as reais condições de trabalho impostas pelo novo capitalismo dos serviços, do digital e da precarização/terceirização acelerada.

Basta lançarmos um rápido olhar para as maiores empresas do mundo, os chamados 4 grandes (Big Four), Amazon, Apple, Google e Microsoft, para constatarmos que o seu gigantismo brutal e a velocidade do seu crescimento deixam o 5º classificado, a Samsung a grande distância.

O valor real do Big Four hierarquiza-se em 2021 como segue:

. Apple $ 323 B

. Amazon $ 201 B

. Mcrosoft $ 166 B

. Google $ 165 B

. Samsung $62 B

Se nos perguntarmos o que produzem essas empresas, a resposta é “nada”. Apesar de movimentarem quantias de valor gigantescas, a sua própria força de trabalho é comparativamente reduzida, como  muito reduzida é a comparticipação do factor trabalho na formação de toda essa riqueza.

Pior ainda, o cerne do funcionamento dessas e outras empresas similares assenta principalmente na intermediação de serviços, o que quer dizer que visam extrair mais-valor ao funcionamento das outras empresas mais pequenas, parasitando-as à escala global. Tal é ainda acentuado pelo caminho abertamente monopolista que têm imprimido à sua actividade, obrigando o mercado a aceitar ou a desistir. Como estamos longe do liberalismo dito de mercado-livre!

Reparemos ainda que Mark Zuckerberg, um dos mais ricos do mundo, como outros grandes empreendedores, terá com certeza usado “trabalho” em sentido usual, aquando da formação do Facebook, mas uma vez lançada a actividade, ela alimenta-se a si própria e dispensa quase todo o trabalho, para além da gestão dos fluxos. Tal significa que o factor trabalho tende cada vez mais para zero, à medida que esses gigantes vão crescendo a um ritmo alucinante, agora potenciado ainda mais pela pandemia.

Se olharmos agora para a rápida automação – a Amazon inaugurou a 1ª loja sem funcionários e os camiões autónomos já circulam em várias zonas do mundo – vemos que o factor trabalho também actua como primeiro motor ou como pontapé de saída, mas depois desaparece quase por completo na actividade normal. Os próprios bancos, por exemplo, já passaram ao cliente grande parte do trabalho que antes era feito pelos funcionários. Os especialistas calculam que mais de metade dos actuais empregos vão desaparecer nas próximas duas ou três décadas. Ou seja, o factor trabalho tomado no sentido tradicional tende a reduzir-se ainda mais.

Por outro lado, constatamos que o capitalismo dos serviços é dos mais preferidos hoje, por realizar a chamada “circulação da mercadoria” de modo quase instantâneo, apressando assim o retorno do capital, ao contrário do mecanismo da produção, muito mais complexo e demorado nesse retorno.

Cumpre agora voltarmo-nos para um outro ramo crescente do capitalismo actual, o das empresas de entrega/venda como Uber e outras análogas, para analisar as suas relações laborais.

Representam um caso limite em termos de exploração da força de trabalho, na medida até em que esta deixa de o ser do ponto de vista legal. Os trabalhadores deixam de o ser, passando à situação de meros colaboradores ou vendedores dos seus serviços à empresa, a qual não mantém com eles qualquer espécie de vínculo oficial. A empresa limita-se a comprar-lhes os serviços como quem vai ao mercado e compra batatas. Compra se quer, quando quer, na quantidade que quer e a quem quer.

É a total coisificação do trabalho e da pessoa, meros objectos à deriva na “mão invisível” das forças do mercado.

Um outro processo que permite às empresas desvincularem-se dos trabalhadores é a terceirização onde se inclui o recurso às firmas ditas de trabalho temporário, processo ínvio para os intermediários se apropriarem de uma parte considerável do salário dos trabalhadores subcontratados.

Esta situação significa que a empresa se desliga por completo de toda a legislação laboral e de todas as obrigações entre empregador e empregado, pois, de facto, esses vendedores eventuais nada têm a ver com a empresa, são apenas batatas. Daqui decorrem outras consequências não menos gravosas. Visto o colaborador não pertencer nem ter nada a ver com a empresa, esta não tem de lhe fornecer quaisquer meios de trabalho, externalizando deste modo custos que vão recair integralmente sobre os referidos “colaboradores”. Assim, os entregadores são obrigados a pagar do seu bolso as motas ou carros, GPS, seguros, malas, etc. e a arcar com todas as despesas de deslocação e manutenção desses meios de trabalho ou acidentes em serviço. A segurança social para eles também não existe, a não ser que a paguem integralmente, não há horário de trabalho, condições, feriados, baixa por doença, subsídio de desemprego, reforma, etc. São eufemisticamente apelidados de patrões de si próprios ou até empresários em nome individual, como se estivessem em posição de decidir seja o que for. Mais ainda, tal como no mercado das batatas, os vendedores têm de competir uns com os outros para apresentar os melhores preços, a melhor qualidade e quantidade, numa corrida permanente de todos contra todos, para benefício exclusivo da empresa. O sistema afadiga-se em convencer as pessoas de que a melhor solução é transformar os cidadãos em pequenos capitalistas, sem nunca referir que a quase totalidade das start-ups cai na falência um ano ou dois após o início.

Não deixa de ser elucidativo compararmos este tipo de relações com o que sucedia nas antigas economias esclavagistas do séc. XVIII e XIX. Nestas, o senhor adquiria o escravo como quem adquire uma mula ou um burro, ou seja, um animal de trabalho. Na Antiguidade, o código de Hamurabi já identificava um escravo a um burro, portanto, desprovido de dignidade humana. De igual modo, os donos de plantações defendiam que o escravo não era um ser humano por “não ter alma”.

O senhor adquiria o escravo para sempre, ficando igualmente dono da sua prole, como o dono dos burros fica com as respectivas crias. Adicionalmente, o senhor obrigava-se a fornecer ao escravo ou ao burro o sustento e o abrigo, bem como todos os instrumentos de trabalho. Temos de reconhecer que este sistema de organização da força laboral tinha a virtude de criar uma certa estabilidade em todos os sentidos, tanto para o senhor como para o escravo, a não ser que este se rebelasse.

Comparativamente, os escravizados de hoje encontram-se numa situação francamente pior devido à sua total precarização a todos os níveis e em absoluta dependência da discrição empresarial. Se alguém tem a veleidade de tentar seja o que for não do agrado do patrão, este nem precisa de fazer nada. Limita-se a não lhe dar trabalho ou a não adquirir os seus serviços.

A questão sindical também tem de ser aqui colocada, pois é sabido que, devido a todas as condições indicadas, a sindicalização tem vindo a cair acentuadamente, não só devido a graves limitações legais em países como os EUA, Canadá, Austrália, China, etc. como igualmente por causa da crescente atomização e isolamento dos próprios trabalhadores.

Quer as situações descritas quer também no âmbito das famosas start-ups, tão do agrado dos gurus do novo capitalismo, os trabalhadores, colaboradores ou vendedores encontram-se quase completamente isolados, confinados e esmagados por condições e horários de trabalho exaustivos (aqueles que ainda têm horários), de modo que objectivamente não existe a mínima disponibilidade para se associarem. Muitas das actuais empresas, como as 4 grandes já referidas, implantaram até meios sofisticados de sobrevigilância para impedir quem quer que se atreva de desenvolver ou sequer conversar sobre sindicalismo, por exemplo, ao mesmo tempo que plataformas como o Facebook intensificam o cerco e a censura descarada a muitas organizações progressistas ou de esquerda.

Significativamente, todos as principais estruturas sindicais concentram o seu campo de acção predominantemente sobre empresas produtoras de bens e serviços, de preferência públicas, recusando encarar de frente a problemática das novas empresas baseadas em entregadores/vendedores, call-centres, etc. e em geral as que usam a mão-de-obra mais precarizada e/ou terceirizada. Ou seja, no seu imobilismo atávico e burocratizado, continuam a privilegiar as antigas relações laborais da economia de produção.

Como se sabe, uma outra via usada pelo sistema para se eximir às antigas responsabilidades, tem sido a crescente onda de deslocalização a leste e a sul, fazendo jus à total mobilidade do capital face à relativa imobilidade do trabalho, procurando sempre zonas mais desreguladas e de taxação mais benigna. Grandes empresas que deslocalizaram para a China, já decidiram ir para o México ou para a Nigéria, por exemplo, na constante procura de ambientes fiscais mais favoráveis e de mão-de-obra mais dócil, flexível e barata.

Com o mesmo objectivo proliferam os paraísos fiscais, verdadeiros santuários onde convergem as grandes fortunas e onde os mais ricos conseguem eximir-se a todas as suas responsabilidades sociais, ficando ao abrigo das demandas judiciais.

Outra parte integrante da citada estratégia de superação dos limites, consiste na proliferação de tratados internacionais ditos de livre-comércio (hoje mais de 3500 em todo o mundo), visando libertar as grandes empresas de todos os entraves colocados pelos estados-nação, numa lógica claramente supra-nacional, intensificando a concorrência e esmagando normas laborais, ambientais e de saúde pública.

Conscientes contudo, da instabilidade estrutural onde se movem as praças financeiras e das artificiais subidas dos índices bolsistas, sempre a resvalar para um próximo melt-down, um punhado de ricos-homens americanos onde se integra naturalmente Bill Gates, tem vindo a lançar-se numa desenfreada corrida para a aquisição de vastas superfícies de terras, quer agrícolas quer florestais (milhões de ha), como a dizer que o colapso da economia da nota verde estará próximo e que o investimento em latifúndios sempre é mais estável que a aposta em títulos.

A actual situação aponta assim para a necessidade acrescida de um profundo combate à corrupção, não apenas àquela que funciona à margem da lei, mas sobretudo a que tem lugar dentro da própria lei, a chamada corrupção legal ou legalizada, enquanto as esquerdas institucionais se vão remetendo para posicionamentos cada vez mais defensivos, limitando as suas críticas a aspectos pontuais e injustos do sistema, mas não ao próprio sistema como um todo.

Escândalo VW: Berlim recomenda Honestidade aos Portugueses e esconde a Intrujice da Volkswagen

A fraude VW tem mais que se lhe diga. Os pontos visados são verdade mas importa contextualizar. Tb é facto que a indústria auto americana sofre de um claro desfasamento/atraso relativamente à europeia. Os carros europeus, sobretudo do grupo VW, são muto mais eficientes, menos poluentes e mais seguros que os made in USA. Se adicionarmos este facto com a aproximação do TTIP que fará os produtos europeus penetrar muito mais profundamente naquele país, temos completo o quadro de desespero das corporações americanas. Claro que elas teriam de fazer alguma coisa para tentar reverter o processo. Mas é evidente que não é esta fraude que vai melhorar o atraso da indústria americana. Trata-se apenas de tentar ganhar tempo. Acrescento ainda que a emissão de partículas poluentes entre as marcas europeias tem na VW o seu mais eficiente elemento. Todas as outras marcas, Mercedes, Peugeot/Citroen, BMW…poluem mais que a VW. Se é verdade que a VW ultrapassa os limites legais, então e os outros?

O Economista Português

Como a VW vigarizou os testes ecologistas

VWBatotasNosTestesFonte: http://www.theguardian.com/business/ng-interactive/2015/sep/23/volkswagen-emissions-scandal-explained-diesel-cars

Há uns anos, o Doutor Francisco Louçã descrevia o capitalismo como um bando de hipócritas capazes de tudo para ganharem mais uns milhões. Parecia uma caricatura mas mas o escândalo da fixação das taxas do Libor e agora a intrujice da Volkswagen para conseguir vender veículos poluentes a gasóleo mostram que essa caricatura era na verdade uma imagem pálida da verdade.

A fraude da Volkswagen foi descoberta pelos Estados Unidos. Qual foi a reação da querida União Europeia (UE)?  A querida UE recusa averiguar pois, se averiguar, a VW será obrigada a indemnizar os consumidores europeus, o que a comissão bruxelina pretende evitar – a bem dos europeus, claro. O presidente executivo da Volkswagen considerou que não valia a pena demitir-se, por tem dúvidas sobre a sua culpabilidade: com efeito, Martin Winterkorn declarou «não estar cônscio de nenhuma culpa da sua…

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